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Arquitectura Popular, Ruralidade e Património Construído

A Terra da Maia

José Augusto Maia Marques[1]

Esta comunicação pretende apenas apresentar um ponto de situação de um projecto de investigação, lançado pela Câmara Municipal da Maia, a propósito da recuperação, no Concelho, da designada «arquitectura popular»[2].

Esse projecto assenta, basicamente, em três fases distintas, a saber

A) Inventariação - O processo de inventariação encontra-se em fase bastante adiantada, nomeadamente no que diz respeito às habitações e edifícios adjacentes e aos moinhos de rodízio dos rios Leça e Almorode, sobretudo aproveitando-se o esforço na concretização da revisão do Plano Director Municipal. De igual modo outro trabalho de campo, tal como entrevistas e recolhas de materiais está em bom andamento. A recolha documental, incluindo a de documentação histórica, está praticamente concluída[3].

B) Salvaguarda - Os primeiros projectos de salvaguarda aplicáveis a este tipo de património serão submetidos aos vários programas de co-financiamento permitidos pelo III Quadro Comunitário de Apoio (Programa Operacional da Cultura e Programa Operacional do Norte medida 1.4). Isto significa que as tarefas de recuperação propriamente dita, para além de algum «tratamento preventivo» de emergência já realizado, se iniciarão, o mais tardar, no primeiro trimestre de 2001.

C) Valorização - Os esforços de valorização do património da arquitectura popular passam essencialmente pela atribuição de funções e de ocupação de espaços. Assim, no caso dos moinhos, por exemplo, é nosso desejo musealizar alguns exemplares que, pelas suas características, possas ser considerados paradigmáticos, assim como transformar outros em centros de interpretação e locais passíveis de apresentar exposições, não só sobre os moinhos em si mesmos como sobre toda a problemática da ruralidade na Terra da Maia. O mesmo se aplicará a alguns exemplares da arquitectura doméstica e das construções adjacentes, sendo que aqui o «objecto musealizável» pode ser utilizado para fins mais vastos, desde que conservando a su8s identidade como construção.

Como é evidente, dadas as dimensões da questão (estamos a falar de mais de centena e meia de imóveis classificados, preventivamente, como de interesse municipal) não vamos recuperar todos os moinhos, todas as casas, todos os anexos, etc., etc.

Há um trabalho de recolha de dados e elementos construtivos que abarca a totalidade destes imóveis e, depois, uma fase de selecção dos que importa musealizar (recuperar e pôr a funcionar tal como acontecia), dos que importa recuperar arquitectonicamente (mantendo a estrutura arquitectónica de base mas dando-lhe outra finalidade) e aqueles de que importa apenas ou preservar informação ou preservar elementos arquitectónicos e de construção.

Todas estas tarefas são levadas a cabo de acordo com um projecto abrangente de estudo da problemática da ruralidade na Terra da Maia, elaborado pelo Centro de Estudos da Ruralidade da Câmara Municipal da Maia e executado pela sua Divisão do Património Histórico-Cultural e do Turismo.

2.1. O âmbito temático - Arquitectura Popular

Um dos aspectos fundamentais de toda a problemática em apreço foi estabelecer um consenso no que toca ao conteúdo do termo «arquitectura popular».

Efectivamente o termo popular tem, no "nosso" português, um conteúdo demasiado abrangente:«relativo ao povo; que é do povo; que é próprio do povo; que é usado ou comum entre o povo; que é do agrado do povo; que tem o afecto ou as simpatias do povo; promovido pelo povo; que provém do povo»[4].

Por arrastamento «arquitectura popular» teria inevitavelmente a mesma amplitude[5].

Aliás, toda a problemática da denominada «Cultura Popular» se encontra numa encruzilhada de reformulações, de reposicionamentos e, sobretudo, de redefinições de âmbitos e de estratégias. A Câmara Municipal da Maia, consciente da importância de discutir essa problemática, levou já a cabo dois grandes congressos internacionais, o de «História Regional e Local», em 1998, e o de «Cuiltura Popular», em 1999, cujas actas estão já publicadas, e prepara, como o culminar deste esforço, um outro evento, para 2001 cujo título, provisório, «Buscando as Raízes», espelha justamente essa preocupação.[6]

Decidiu-se, assim, utilizar, para caracterizar «arquitectura popular», o conceito de «arquitectura vernacular», «arquitectura anónima» ou «arquitectura sem arquitectos», do modo como a caracteriza o espanhol Pedro de Llano.

Diz aquele autor que[7] "Longe do esquecimento académico, o conceito de arquitectura abarcou [...] a contemplação de todo o conjunto de transformações do meio realizadas pelo homem para lograr uma melhor qualidade de vida, desde os muros, valos e alpendres até à própria casa de habitação". E, mais adiante, "Esta é uma definição que, repudiando delimitações «classistas», implica a inquestionável integração no domínio da arquitectura de todas as construções. Edificações intimamente vinculadasa gentes que, século após século, foram quem as ergueu, sem mais experiência do que a tradição, nem mais ajuda do que a da própria comunidade. Edificações que parecem nascer como um prolongamento da paisagem e do carácter do homem que as vai habitar, dando lugar a uma arquitectura que pela sua identificação com cada país e com as mais imediatas necessidades do seu povo, constituirá um dos seus mais destacados sinais de identidade"[8].

Assim, nesta relação privilegiada com o meio, nesta característica «ecológica», reside uma dos principais características distintivas da arquitectura popular. Arquitectura que, condicionada embora por limitações de vária ordem, quer material (clima, matérias primas disponíveis, conhecimentos técnicos...), quer sociocultural (economia, família, religiosidade...), se desenvolve, tão harmonicamente quanto possível, respeitando a natureza.

Daí que, tal como Pedro de Llano afirma, se trate, acima de tudo, de uma arquitectura com raízes. Raízes profundas, diríamos nós, quer no espaço quer no tempo. Raízes que chegam às nossas próprias raízes...

2.2. O âmbito geográfico - Terra da Maia

A Terra da Maia tem, territorialmente, um sentido em nada condicente com o do actual Concelho da Maia.

A Maia dos princípios do século era ainda um extenso território que se alongava, no sentido meridional, desde as margens do Douro, a Sul, até ao curso do Ave, a Norte. No sentido transversal ia da costa a uma pequena linha de elevações de Bougado a Rio Tinto.

Significa isto que à Terra da Maia pertencia a totalidade do concelho de Matosinhos, todo o concelho de Vila do Conde a sul do Ave, uma parte de Santo Tirso, de Valongo e de Gondomar e até uma freguesia do Porto.

Esta era a área da Terra da Maia medieval - 67 freguesias.Já haviam sido 85.

As reformas introduzidas por Mouzinho da Silveira começam a beliscar seriamente a unidade territorial da Maia.

Em 1835 o concelho compunha-se de 52 freguesias. Na segunda metade do século desmembrou-se completamente. Freguesias que lhe pertenciam engrossaram concelhos vizinhos, alguns dos quais inteiramente formados à custa da Maia.

Ficou o concelho da Maia reduzido a 16 freguesias: Águas Santas, Avioso (Santa Maria), Avioso (S. Pedro) Barca, Folgosa, Gemunde, Gondim, Gueifães, Maia, Milheirós, Moreira, Nogueira, São Pedro Fins, Silva Escura, Vermoim e Vila Nova da Telha. Só em Outubro de 1985 se autonomizou, de Águas Santas, a freguesia de Pedrouços, ficando então a Maia com a configuração geoadministrativa que hoje tem.

Esta "sangria" territorial descaracterizou completamente a velha Terra da Maia no que toca ao seu território.

Mas não no que respeita às características do homem e da vida quotidiana. Toda a área entre o Sul do Ave e o Norte do Douro, dona de um passado histórico muito rico é, ainda hoje, uma região eminentemente agricolo-piscatória, com um viver, um sentir, um construir e um laborar extremamente semelhantes, guardando, ciosamente, a herança da Terra da Maia.

Dentro do vasto e rico património rural da Maia avultam, quer em número quer em importância, dois tipos construtivos: a «Casa Rural», conceito cuja definição e taxonomia não é, como de seguida veremos, fácil de estabelecer, e os moinhos de rodízio, protagonistas do que poderíamos chamar uma «revolução industrial rural», verdadeiros motores de uma economia muito característica de toda esta região.

Assim sendo, e dado que mais não se pretende (e mais não é possível) senão apresentar aqui primeiras abordagens à questão, é exactamente destes dois tipos construtivos que iremos falar de seguida.

3.1. Os Moinhos de Rodízio.

A Terra da Maia é, por tradição e por factos historicamente documentados, uma terra fértil. Já fértil na Pré-história. De proverbial fertilidade entre os romanos. De comprovada fertilidade durante toda a Idade Média.

Com o evoluir dos tempos, e das técnicas, aproveitando-se a força da água. aparecem os moinhos de maiores dimensões, de utilização "colectiva", onde, tal como afirmam Jorge Dias, Veiga de Oliveira e Fernando Galhano (1959, pp. 21-28.) "A água ao bater nas penas do rodízio, fá-lo girar accionando desta maneira a mó que está fixada na extremidade superior do eixo vertical que, na parte inferior, está cravado no centro do rodízio".

Os moinhos construídos nos rios são frequentemente de utilização sazonal. No verão, com a diminuição dos caudais, a força da água não é suficiente para fazer movimentar os rodízios.

á, na terra da Maia, várias soluções para o problema. A adopção de um depósito de água com uma saída com um jacto forte, a que se chama seteira; a construção de pequenos moinhos em pedra, bem no leito dos rios, protegidos, por vezes, por talhamares, e que, quase submersos no inverno, só funcionam no verão; a combinação entre moinhos de rodízio e azenhas, sendo que a roda da azenha permite aproveitar caudais mais pequenos.

O tamanho dos moinhos variava muito, não só tendo em conta o local onde eram construídos, como também o regime em que seriam utilizados, e, sobretudo, a produtividade e a acessibilidade do próprio moinho.

Já na Idade Média a actividade moageira era muito importante na Terra da Maia. Como afirma Carlos Alberto Ferreira de Almeida (1971, Vol.I, pp. 73-78) "Em todos os aspectos, técnico, económico, social e mental eles têm um lugar fundamental na vida medieval".

A grande importância económica do moinho pode demonstrar-se por um documento de 1102 onde se vende a metade de um moinho por um cavalo e dois bois. Ora, em circunstâncias normais, o valor de um casal regularia por um cavalo e uma casa poder-se-ia comprar apenas por um boi.

No Foral da Maia, manuelino, aparecem várias referências a moinhos, normalmente associados a casais.

Por toda a Idade Moderna a fertilidade do solo maiato manteve em funcionamento muitas e muitas dezenas de moinhos, alguns dos quais, como vimos, de forma sazonal, mas com importância decisiva na economia da época.

Algum tempo depois, no Inquérito Industrial realizado no Distrito do Porto em 1855 (MAIA, 1997, pp. 15-16.) aparecem registados no concelho 401 azenhas e moinhos de farinar o pão, 26 engenhos de linho e 2 engenhos de azeite, todos eles utilizando a água como único meio de propulsão.

Em 1880 surgem já dois moinhos a vapor e, no princípio do século, um a gasóleo.

Parte inferior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)

No rio Leça os moinhos atingiam grandes proporções, havendo vários de dez, doze e quinze pares, e mesmo um de dezasseis.

Podemos já falar de verdadeiras unidades proto-industriais, que davam trabalho, ao tempo, a cerca de quatrocentas pessoas, número bastante significativo se atentarmos no total da população que andaria por volta das dezassete mil almas. Hoje, há vestígios seguros de 48 moinhos, e referências documentais praticamente a outros tantos.

A actividade de um moinho baseia-se na força propulsora da água que, impelida contra as penas do rodízio, o fazem girar, sendo esse movimento giratório comunicado ao par de mós através de um sistema algo complexo de um eixo central.

Há assim, podemos dizer, duas partes distintas num moinho de rodízio: aquela onde pontificam as mós (parte superior) e aquela onde pontificam os rodízios (parte inferior).


Parte superior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)
Assim, a água, vinda directamente do rio ou de um depósito, passava pelo cubo, canal de descida, entrava a jorrar pela seteira (1) e impelia o rodízio (2) na Maia frequentemente chamado "pela". A pela era constituída por penas (3). Rodava sobre um aguilhão (4), tradicionalmente constituído por dois seixos de quartzito, um deles estreito, rodando sobre outro, largo, com um orifício. A pela transmitia o seu movimento de rotação à haste (5) ligada ao veio (6). Deste modo a mó movente (11) rodava sobre a dormente (12) graças a um entalhe adaptado à segurelha (10), peça da extremidade do veio. A espessura da farinha controlava-se graças ao aliviadouro (9) que através da sua trave (8) comunicava com uma tábua, denominada ponte (7). Dado que o aliviadouro funcionava em forma de cunha, consoante a cunha estivesse mais dentro ou mais fora, assim a distância entre as mós seria maior ou mais pequena, e, logo, a farinha mais grossa ou mais fina.

Na porção superior do moinho, tudo se articulava com este funcionamento.

Com o já referido aliviadouro (9) controlando a espessura da farinha através da distância entre as mós (11), o ceral era colocado na moega (13), que, o deixava cair na tremonha ou quelho, vibrando graças ao movimento da rela ou chamadouro (15) roçando na mó. Este movimento conduzia o cereal ao centro, oco, da mó, onde era triturado, caindo depois numa caixa de madeira protegida por uma cortina (16) para evitar a dispersão da farinha.

Da sistematização expendida na obra Sistemas de Moagem (1983), podemos inferir que os Moinhos podem ser classificados em dois grades grupos: Moinhos de Água/Azenhas e Moinhos de Vento.

O segundo, que não nos interessa por agora, subdivide-se em três sugbgrupos: moinhos de vento fixos, moinhos de vento giratórios e moinhos de armação em madeira.

Quanto aos primeiros, os moinhos de água, que mais nos interessam, podem ser de roda horizontal (de rodízio, com penas ou de rodete submerso) ou de roda vertical, chamados azenhas, sendo estas de propulsão superior ou média.

Se bem que na Maia encontremos exemplares de ambos os tipos, predominam, sem sombra de dúvida, os moinhos de rodízio.


Corteesquemático de um moinho de rodízio da Terra da Maia

Legenda:

a - MOEGA
b - TREMONHA ou QUELHO
c - RELA OU CHAMADOURO
d - MÓ MOVENTE
e - MÓ DORMENTE
f - SUPORTE
g - SEGURELHA
h - VEIO
i - HASTE

j - PELA
k - PENA

l - PONTE
m - TRAVE DO ALIVIADOURO
n - ALIVIADOURO
o - AGUILHÃO
p - CUBO
q - COMPORTA OU PEJADOURO

3.2. A casa maiata

Casa é o lugar onde se vive com os seus. É como que um cordão umbilical, espécie de prolongamento do corpo materno, onde habita, geralmente, a família.

O conceito de «casa» envolve um duplo significado. Por um lado o de uma construção para servir de habitação a um grupo familiar, por outro lado o de uma construção simbólica, que se posiciona entre o corpo e a paisagem (Aguirre, 1993: 96).

A casa possui uma simbologia extremamente rica. Como tudo aquilo que tem tecto, ela é a materialização de um microcosmos, de um universo à medida do homem.  

Casa e cozinha maiatas
óleos de Albino José Moreira

É normalmente constituída, tal como as árvores e o corpo humano, por três partes distintas (cave, zona de habitação e sótão), sendo que a cave, tal como o inferno, está debaixo do solo. É um lugar de reuniões secretas, de con spirações, de obscuridade, de castigo.

O sótão é um lugar misterioso, povoado de recordações e fantasmas, habitado por boémios, penetrado pela luz do dia, onde guardamos aquilo que já não nos serve, mas também as nossas recordações.

Entre um e outro situa-se a área de habitação, cujo epicentro é o «focus» latino (lar, hogar, foyer...), zona dominada pelo fogo da lareira ou do fogão (comida, calor, luz...), onde a mãe alimenta os seus.  

Quarto e sala maiatas - óleos de Albino José Moreira

Outras duas áreas se apresentam como igualmente carregadas de simbolismo - o quarto de dormir (locus da noite)e a sala de jantar (locus do dia).

Quanto ao primeiro, possuindo como peça central a cama e,em contexto católico encimada por um crucifixo, é não só o lugar do amor e da vida, através da concepção e do nascimento, mas igualmente o lugar da morte, do amortalhamento, da ausência.

No que toca à sala, ela estende-se à volta da mesa, lugar colectivo da alimentação.

A casa tem uma inegável importância económica e urbanística. O processo dasuaconstruçãomexe coma burocraciaadministrativa, comacriação artístico/arquitectónica e, após a sua construção, continua ligada a questões financeiras, fiscais e administrativas.

Dá-se até o caso de, por trás do fluxo migratório que, nos anos 60, assolou a Europa do sul estar a falta de (e a necessidade de) dinheiro para construir uma casa.

As implicações sociais, psicológicas e mesmo comportamentais da casa não podem ser descuradas. Para não falar da simbologia e da semiótica das casas.

A casa-residência é, dessa forma, um elemento determinante no ritmo vital de uma pessoa ou de um grupo. E se estamos minimamente habituados a considerar a casa nas suas implicações estéticas, urbanísticas, económicas, etc., já não é hábito observarmos as suas implicações nas interacções dos seus ocupantes.

Curiosaé a perspectiva de Abrahams e Dean (1970: 256) que explica a dicotomia de carga simbólica da palavra «casa» (onde o peso negativo da falta de casas condignas e a falta de equipamentos é notório) e da palavra «lar» (o conceito aconchegante, o seguro refúgio).

Segundo aqueles autores, a palavra «lar» compreende diversos elementos:

- pode ser aquela estrutura onde se investem o «ego» familiar e as suas receitas;

- pode ser um lugar onde é possível exprimir o gosto e a propriedade pessoais, não só aos olhos dos demais como aos olhos da sua família e aos de si próprios;

- pode ser uma máquina para facilitar a vida pessoal, realizar as actividades familiares e aligeirar a rotina quotidiana;

- pode ser um lugar de retiro para a vida privada, para um relaxamento espontâneo e para uma expressão autêntica, desinibida, dos sentimentos;

- pode ser um bastião emocional contra as ameaças e as inseguranças de um mundo demasiado grande, demasiado complicado, onde os homens devem competir com outros homens para abrir caminho;

- pode ser o centro das actividades familiares e da interacção com os amigos. Pode por isso estar rodeado da atmosfera ligeira das recordações de infância, dos «velhos costumes» ou de algum outro significado ainda mais profundo.

Eis uma panóplia enorme de possibilidades, variantes e significados que nos mostra bem a riqueza do tema. Tema que seria talvez despropositado aprofundar aqui, mas que, mesmo assim, não quisemos deixar de aflorar, em chamada de atenção.

De todo o modo, a «casa»/edifício e o «lar»/refúgio, segurança, conforto, são o locus de habitação do grupo doméstico.

Grupo doméstico que tem como função principal primeiro sobreviver, depois estruturar-se e reproduzir-se.

Torna-se óbvio, do que fica dito, e do que é sabido, que no que diz respeito ao aspecto arquitectónico, não há, em Moreira uma «casa» mas sim várias «casas».

A maior parte das construções, eram térreas ou de andar, de dimensões médias ou pequenas. As médias, mais abundantes, possuíam geralmente dois corpos em L de braços desiguais, cobertos por telhados de quatro águas. Quando existia o andar, o rés-do-chão era utilizado para guardar alfaias, carros, palha, fruta, vinho, etc., no que se chamava as "lojas" Por vezes alguma dessas lojas era empedrada. Também era normal que a cozinha se situasse no rés-do-chão.

O andar possuía normalmente um quarto grande e uma sala ampla, ao fundo da qual havia uma ou duas alcovas, sem porta, tapadas apenas com um cortinado.

Era tradicional da Terra da Maia uma escada alpendrada, ou em linha recta ou em dois lanços fazendo ângulo recto, e com o alpendre sustentado por colunas, dando acesso ao andar.

Casa na Refonteira (desenho de António Matos)

e Planta-tipo de uma casa da Maia

Para o patamar dão normalmente duas portas, a da sala e a do quarto grande. Por vezes este patamar era fechado com um taipal possuindo uma janela

Só as grandes casas de lavoura fugiam a este padrão. Nestas, era tradicional o portal em arco, abatido ou de volta redonda, localizados normalmente na própria fachada da casa, tratando-se, no mais das vezes, da entrada para o quinteiro. Muitas vezes possuíam, inscrita na parte superior do arco, uma data e eram dotados de banquinhos laterais em pedra.

uturação de uma Casa da Maia (desenho de Fernando Galhano)
 

Oliveira e Galhano (1992) publicaram vários artigos sobre estas típicas construções da Terra da Maia.

As casas de categoria média-alta formavam já verdadeiros «complexos agrícolas». Tratava-se normalmente de propriedades que se desenvolviam em quatro espaços diferentes.

Um primeiro, a parte da casa de habitação propriamente dita.

Depois, imediatamente a seguir, e normalmente formando um conjunto murado, toda a panóplia de arrecadações, alpendres, casa da eira, espigueiro, poço e outras estruturas afins.

Casas maiatas - óleos de Albino José Moreira

Ainda de seguida ficava, normalmente, uma grande extensão de terra arável.

Finalmente, espalhados pela freguesia, e até às vezes em freguesias vizinhas, ficavam os outros campos, bouças, lameiros, etc

Quinteiro e vista parcial de uma eira maiata - óleos de Albino José Moreira

Um dos elementos de distribuição espacial, e de vivência doméstica, mais significativos era o quinteiro. O outro era a eira. Mestre Albino José Moreira retratou-os com uma vivacidade espantosa.

Enquanto no primeiro se desenrolava uma parte das actividades intra-muros, servindo, aliás de armazém para alfaias, utensílios e outros instrumentos de trabalho, a segunda era, frequentemente, o verdadeiro coração das tarefas agrícolas «domésticas», local de reunião e de interacção não apenas familiar como de vizinhança. E, também, local de diversão, de poesia, de música, de dança, de namoro, quem sabe mesmo de casamento.

Este esquema, que apresentamos para as casas de lavoura, era seguido, de perto, pelas casas «urbanas» da classe média. Isto, claro, se é que, nas condições das aldeias da Maia, e no século XIX e princípios do século XX podemos falar de casas «urbanas».

 
Casa no largo da Feira em Moreira - óleo de Albino José Moreira

No mais das vezes tratava-se, isso sim, de casas construídas à face da rua e habitadas por famílias que se dedicavam a actividades não agrícolas.

Mas quer o espírito da construção quer os construtores eram os mesmos. O resultado final, em termos de distribuição espacial e cultural não era, por isso, muito distinto.

 

Como no início referimos, é nossa intenção trazer aqui apenas as primeiras abordagens a um problema vasto, complexo, apaixonante e urgente.

Apenas levantamos o véu.

Apenas sugerimos pistas.

Fica por abordar, por exemplo, a problemática das construções anexas, das construções efémeras e de outras estruturas congéneres


Fica por abordar, por exemplo, o riquíssimo património popular que são as denominadas casas «de brasileiro», isto é, a arquitectura dos emigrantes que, no séc. XIX, regressam do Brasil e aqui constróem os seus «palacetes».

Fica por abordar, por exemplo, a existência de uma «interpretação local» da Arte Nova, de que é produto o edifício da Cooperativa Popular de Moreira da Maia.

Esperamos, no entanto, ter demonstrado a importância deste trabalho.

Esperamos, sobretudo, críticas, sugestões, ideias.

ALGUMA BIBLIOGRAFIA

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CAAMAÑO SUAREZ, Manuel (1999b) - As construccións adxetivas. A Coruña, Museo do Pobo Galego.

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LLANO, Pedro (1996). Arquitectura Popular en Galicia - Razón e Construcción. Santiago, COAG.

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LOURES (1994) - Moinhos e Azenhas do Concelho de Loures. Loures, Câmara Municipal.

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OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim (1983) - Tecnologia Tradicional Portuguesa - Sistemas de Moagem. Lisboa, INIC.

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SILVA, Eduarda Moreira da Silva e SILVA, Maria Antónia (1987) - "Moinhos do rio Sousa no Concelho de Paredes, Revista de Ciências Históricas da Universidade Portucalense, Vol. II, 1987, pp. 341-355.

VITERBO, Francisco de Sousa "Archeologia industrial Portuguesa - Os moinhos", O Archeologo Português, Vol. II, Nºs 8 e 9, pp. 5-16

 
NOTAS


[1] Da Câmara Municipal da Maia e do ISMAI - Instituto Superior da Maia

[2] Os meus estudos sobre esta temática devem muito a várias colaborações. Em primeiro lugar aos óleos ingénuos de Mestre Albino José Moreira que são como que um verdadeiro retrato vivo de um tempo que já passou, pelo qual ele passou, e que, graças à sua perspicácia e criatividade, não deixou que passasse por nós. Depois, a alguns desenhos do amigo António Matos, brilhante ilustrador e aguarelista. Finalmente ao labor do André Tomé Ribeiro, companheiro incansável destas lides. Este trabalho não é excepção àquela regra.

[3] Tanto quanto, como é evidente, podemos considerar concluído qualquer tipo de recolha.

[4] Veja-se por exemplo o Dicionário Enciclopédico Alfa, Vol. II. Lisboa, Publicações Alfa, 1992, p.945.

[5] Isto para não entrarmos pela discussão, praticamente infindável, mas que aqui sem dúvida não cabe, do conteúdo significativo da palavra «povo».

[6] Sobre esta temática é fundamental e indispensável o trabalho de Augusto Santos Silva, Tempos Cruzados. Um estudo interpretativo da cultura popular. Porto, Afrontamento, 1993, nomeadamente o capítulo "Construção social e reconstrução sociológica da Cultura Popular", pp. 97-140.

[7] Pedro de Llano. Arquitectura Popular en Galicia - Razón e Construcción. Santiago, Colexio de Arquitectos de Galicia, 1996, p. 15.

[8] Este papel, fundamental, da arquitectura popular como factor de identidade, está bem presente na Maia, quer através da sua arquitectura «tradicional» quer, por exemplo, da arquitectura «dos brasileiros», a que aludiremos, muito brevemente, no decorrer do texto. E é, por outro lado, cada vez mais importante à medida que a nossa identidade se vai diluindo na progressiva europeização e consequente globalização a que estamos sujeitos.

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