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Lavagem do Bonfim: Tradições e Representações da Fé na Bahia

II Congresso Virtual de Antropologia

Simpósio em Antropologia Visual

Luís Américo Bonfim

Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais/Mestrado em Antropologia

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

Universidade Federal da Bahia

© Fundação Pierre Verger

INTRODUÇÃO

O presente ensaio tem como objetivo uma aplicação prática da teoria hermenêutica na antropologia visual. Partindo de uma unidade do meu projeto de pesquisa "Espelhos da Bahia: impressões de uma cidade em movimento", proponho uma análise da Festa da Lavagem do Bonfim, a partir da comparação de fotografias de autoria de Pierre Verger (realizadas entre 1946 e 1952) e do meu próprio acervo, constituído a partir da minha observação, sendo este um exercício interpretativo aplicado na hermenêutica visual.

Agradeço à diretoria da Fundação Pierre Verger por ter me cedido o direito de uso das imagens originais que são a referência básica deste estudo.

A FESTA DE NOSSO SENHOR DO BONFIM

O culto ao Senhor do Bonfim teve origem em 1669, em Setúbal, Portugal. Ainda neste ano o culto chegou ao Brasil, junto com uma cruz de Jesus crucificado. Uma imagem igual à que existe em Portugal chegou à Bahia em 1745 e, em 1754, foi construída a atual Igreja (Basílica) de Nosso Senhor do Bonfim.

Esta festa é considerada a mais importante das comemorações de largo de Salvador. Com data móvel, os festejos religiosos (a parte sacra da festa) consiste num novenário que se encerra no segundo domingo após o Dia de Reis.

A festa realiza-se no Largo do Bonfim, bem em frente à igreja, no alto da Colina Sagrada, na última quinta-feira antes do final do novenário e é marcada pela lavagem da escadaria e do adro da igreja por baianas vestidas a caráter, trazendo na cabeça água de cheiro (muito disputada entre os fiéis) para lavar o chão da igreja e flores para enfeitar o altar.

Nos cultos afro-católicos, o Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá, segundo Verger, "sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais" (1997: 259). Ocorre também uma aproximação entre a festa católica e a dos cultos afro-brasileiros, as "Águas de Oxalá".

A festa da lavagem é atribuída à promessa de um devoto. Acredita-se que o ritual da lavagem teve origem nos tempos em que os escravos eram obrigados a levar água para lavar as escadarias da Basílica para a festa dos brancos, desde esta época um agradecimento do povo às graças concedidas pelo Senhor do Bonfim. Considera-se o ano de 1804 como o da primeira lavagem oficial.

O cortejo parte ainda pela manhã da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e vai até o Bonfim, arrastando multidões num percurso de aproximadamente 14 quilômetros. Uma presença certa nesta caminhada é a de autoridades civis e militares, artistas e personalidades da cidade de Salvador, da Bahia e do Brasil.

Até a década de 50 as baianas tinham acesso ao interior da Igreja, onde o chão era lavado "com energia e entusiasmo" (Verger, 1990: 11), até que as autoridades eclesiásticas limitaram a lavagem apenas ao adro da Igreja.

Paralelo aos festejos religiosos, há ainda a festa "profana", marcada pela presença de barracas de comidas típicas e bebidas, desde o alto da Colina Sagrada. A partir de 1998 a parte carnavalesca da festa sofreu uma intervenção imposta pela Prefeitura Municipal e pela Arquidiocese de Salvador que, numa tentativa de defender as tradições históricas da festa, promoveram um afastamento dos trios elétricos e caminhões de blocos alternativos que acompanhavam o cortejo desde a Avenida Contorno, muitas vezes sequer chegando à metade do percurso e de uma certa forma desviando e desvirtuando o caráter religioso do dia, promovendo um mini-carnaval com direito a todos os excessos que lhe são peculiares. Mesmo com as restrições determinadas pela organização da festa, neste ano de 2000 a EMTURSA (Empresa Municipal de Turismo) estimou a presença de 300 mil pessoas nas ruas, acompanhando os festejos.

Como alternativa para os foliões de ocasião e para as agremiações, entidades e empresas envolvidas na promoção da parte profana da festa (que virou evento turístico, com altos investimentos e atraindo mais turistas do que a própria festa religiosa), ficou estabelecido que nos sábados seguintes à Lavagem do Bonfim aconteceria no bairro da Barra o Farol Folia, grito de carnaval dedicado aos blocos que ficariam afastados da festa de quinta-feira. O percurso é o mesmo conhecido no carnaval como Circuito Dodô e sai do Farol da Barra em direção ao bairro de Ondina, perfazendo um total de 4 quilômetros.

No dia 12 de janeiro de 2000 foi inaugurada a nova iluminação da fachada da igreja. O projeto de iluminação evidenciou as pilastras e a torre dos sinos, ressaltando os elementos arquitetônicos e criando volumes.

Questões de método

Neste pequeno ensaio não tenho como objetivo estabelecer uma análise de conteúdos à luz da antropologia social - esta será a matéria da minha própria dissertação - mas simplesmente indicar heuristicamente como estabeleci critérios que possibilitassem uma correspondência biunívoca entre os registros de Pierre Verger e sua provável percepção nos dias de hoje.

Acredito que uma análise comparativa de conteúdos só será possível se os parâmetros de comparação forem compatíveis, ou seja, se houver uma correspondência lógica entre os dois contextos estudados.

Para tanto, a primeira ação neste sentido foi coletar uma amostragem das fotografias originais que fossem passíveis de uma análise comparativa, ou seja, que contivessem elementos visuais suscetíveis a uma aproximação nos dias de hoje.

Esta amostragem foi coletada do livro Retratos da Bahia (Editora Corrupio, Salvador, 1990), que também é a referência da minha dissertação. Consistiu de 5 (cinco) fotografias que expressavam a visão do etnólogo francês a respeito da Festa. Sobre estas imagens tentei detectar que detalhes poderiam ser retratados por mim e servir de um tópico de discussão e análise.

A partir do exame das imagens de Verger e de toda a projeção que a Lavagem do Bonfim ganha ano após ano, decidi observar a participação popular , sua presença no local da Festa e como o poder público, os órgãos de segurança e as empresas de comunicação de massa se relacionam neste sistema.

Tendo estabelecido estes parâmetros, parti para o local da festa, no dia 13 de janeiro de 2000.

O EXERCÍCIO HERMENÊUTICO

Inicialmente, devo dizer que as fotografias tomadas por Pierre Verger no livro de referência dão apenas uma observação parcial do adro da Igreja e alguns closes nas baianas que tradicionalmente participavam da Lavagem. O livro não traz registros da movimentação popular e o fotógrafo toma em quase todas as fotos um plano à altura do nível de observador, não reproduzindo nenhuma imagem panorâmica ou de um plano superior (plonger) da Festa.

Apesar do acervo da Fundação Pierre Verger conter outras imagens do próprio fotógrafo, inclusive em planos diferentes, devo, por questões de delimitação da amostragem, trabalhar com as fotografias constantes no livro, que, em si, também é objeto de estudo da dissertação.

Cheguei no alto da Colina Sagrada por volta das 11 horas. Apesar de não estar credenciado pela EMTURSA, consegui através de uma conversa com um membro da segurança oficial uma permissão para ter acesso à escadaria e ao adro da Igreja, de onde poderia me posicionar de forma mais favorável.

Enquanto o cortejo não chegava, fui fotografando os preparativos para a Festa. Havia um coral infantil que entoava cânticos religiosos e populares. Também se anunciava a presença de um padre da linha carismática que depois da Lavagem faria o lançamento do seu CD. Nas proximidades do adro da Igreja, uma multidão se acotovelava em busca da famosa água de cheiro, alguns até levavam recipientes para coletar uma quantidade maior. O único inconveniente pra mim que estava no meio da confusão era os respingos do água sobre o equipamento fotográfico.

Aproveitei o ambiente ainda livre do cortejo e fiz umas fotografias da disposição do público frente à Igreja.
Figura 1 Figura 2

Pode-se notar nestas imagens (principalmente na figura 2) uma organização e controle da massa popular que são a medida do atendimento aos sistemas de comunicação visuais. A Lavagem do Bonfim deixou de ser apenas uma festa religiosa de grande apelo popular local para ser manchete nos principais telejornais do Brasil. E como o caráter da cidade de Salvador é turístico, tem uma estruturada indústria de captação de recursos e difusão da sua imagem, não é de bom grado mostrar manifestações onde prevaleçam uma idéia de desordem e desconforto.

Chega-se ao ponto de criar cordões de isolamento (supervisionados pela Polícia de Choque) para conter a multidão que deseja se aproximar da imagem sagrada do Senhor do Bonfim e se molhar da sua água de cheiro. A figura 3 mostra a Igreja imponente, atrás do seu público fiel e paciente que, sob um sol de quase 35o C aguardava a chegada do cortejo.

Figura 3

Outra figura muito curiosa e que só enfatiza a importância da "imagem" (talvez até superficial) desta grandiosa manifestação popular são as figuras 4 e 5, que mostram a "representação" da lavagem da escadaria da Igreja para câmeras de TV locais, com difusão nacional. É como se para o observador do outro lado do país bastasse essa "impressão" de "lavagem". Chega a ser excessivamente asséptica a disposição das baianas, suas indumentárias impecáveis e um sorriso que está muito mais para o apenas gestual.

Figura 4 Figura 5

A partir das fotografias de Verger (figuras 6 e 7) nota-se que o adro da Igreja permanece quase vazio, em parte pela realização da Lavagem naquela época se dar ainda dentro da Igreja (por parte das tradicionais baianas), sendo o adro ocupado por pessoas comuns.

Figura 6 © Figura 7 ©

O que se verifica hoje é a concentração do grande público nas áreas mais externas à Igreja, as escadarias ocupadas por profissionais da imprensa e o adro tomado por autoridades, baianas e outros "turistas" de ocasião. Às pessoas comuns é vedado o acesso às proximidades da grande festa.

A figura 8 mostra um aspecto do adro às 11 horas, ainda vazio e com a entrada controlada. Às 12 horas (figura 9) as primeiras baianas tomavam a área e recebiam suas vassouras para a tão esperada Lavagem.

Figura 8 Figura 9

Somente por volta das 12:30h foi que o cortejo apontou no alto da colina do Bonfim. Guiada pelo Senador Antônio Carlos Magalhães, pelo Ministro Rafael Greca, pelo Governador do Estado, César Borges e pelo Prefeito Antônio Imbassahy, entre outras autoridades, uma verdadeira multidão acompanhava e cantava o Hino ao Senhor do Bonfim, de autoria de João Antônio Wanderlei.

Ano após ano a Festa do Bonfim vem ganhando um cunho político. A recepção às autoridades do Governo é sempre um termômetro de sua aceitação, desde a saída na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. E este ano mais uma vez o governo de situação foi ovacionado pelo povo. Membros da oposição também participaram da caminhada, a exemplo do Presidente de Honra do Partido dos Trabalhadores (PT) Luiz Inácio LULA da Silva e do então declarado candidato à Prefeitura Nélson Pellegrino.

Figura 10 © Figura 11

 

Do ponto de vista da indumentária e do gestual, a imagem das baianas não sofreu grandes alterações, como comprovam as figuras 10 e 11.

E nem poderia de fato sofrer, uma vez que este talvez seja o mais expressivo ícone da cultura baiana, perfazendo assim uma maior absorção de suas formas pelo imaginário local, nacional e até internacional. Mantém-se os colares, as pulseiras, os jarros de flor com água de cheiro, mas uma tradição se esvai com o tempo: cada vez menos se carrega os tais vasos na cabeça.

Estas pequenas observações ficam ainda mais evidentes nas figuras 12 e 13. A primeira é do acervo documental de Verger, a segunda é de minha autoria.

Figura 12 © Figura 13

Também a iluminação da Igreja deu um novo ar ao panorama largo do Bonfim. Durante décadas esta iluminação consistia de lâmpadas coloridas colocadas nas arestas das paredes da Igreja e em torno de detalhes das torres dos sinos (figura 14). A nova iluminação valoriza o volume da construção e mostra desde as mais distantes vistas a presença da Basílica no alto da Colina Sagrada. Esta é a única imagem panorâmica da Festa do Bonfim registrada por Verger no livro Retratos da Bahia.

Na composição relativa a esta imagem (figura 15), me utilizei da técnica de longa exposição para com a iluminação de um ônibus que passava criar um volume para preencher a área onde na imagem original funcionava uma feira e na ocasião da Lavagem deste ano estava vazia. Como vem acontecendo com uma certa frequência em alguns locais observados pela cidade, a área que esta feira ocupava hoje está tomada por árvores e arbustos, demonstrando uma certa retomada de áreas verdes dentro do perímetro urbano de Salvador, não obstante o desmatamento de outras áreas verdes.

Figura 14 © Figura 15

CONCLUSÃO

Busquei neste ensaio demonstrar como constituí a minha idéia do que deveria ser fotografado por mim, a partir do corpus documental de Pierre Verger.

A concentração na disposição do espaço social e na transformação do caráter da festa se dá em decorrência de estas serem as mais relevantes alterações observadas neste momento histórico em que vivemos.

O grande objetivo da minha pesquisa é articular a fotografia (a partir da sua reconstituição) ao estudo da antropologia. Demonstrar e tentar até compreender as causas das mudanças na vida social através destas imagens (original e re-observada). A fotografia toma para si não só o papel de testemunha, mas de comprovante destas mudanças socioculturais.

BIBLIOGRAFIA

Barthes, R.

1984. A Câmara Clara - Nota Sobre a Fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Verger, P.

1990. Retratos da Bahia. Salvador: Corrupio.

Verger, P.

1997. Orixás, Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio.

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