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As lições do “axé” 1:  
a pedagogia intercultural e comunitária nas religiões afro-brasileiras

 

Profa. Dra. Cristiana Tramonte

* Professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina; Mestre em Educação e Doutora em Ciências Humanas pela UFSC.

 

Resumo

Sob o prisma da Intercultura, as práticas das religiões afro-brasileiras apresentam-se como um campo híbrido de construção de identidade no qual emergem novas estratégias de organização que apontam novas perspectivas para a educação intercultural.

As religiões afro-brasileiras, cujo comando cultural pertence à população negra, congregam a diversidade das origens étnicas e culturais do país, consolidando-se como signos de “brasilidade”. O artigo aqui proposto visa a apresentar a experiência educativa comunitária e intercultural de dois grupos, dois “terreiros” de prática religiosa, completando assim, um ciclo de significações que tenta compreender a problemática do ponto de vista de sua complexidade e da integralidade quando tratamos dos sujeitos destas vivências.

Introdução

Sob o prisma da Intercultura, as práticas das religiões afro-brasileiras apresentam-se como um campo híbrido de construção de identidade no qual emergem novas estratégias de organização que apontam novas perspectivas para a educação intercultural.

As religiões afro-brasileiras, cujo comando cultural pertence à população negra, congregam a diversidade das origens étnicas e culturais do país, consolidando-se como signos de “brasilidade”. O artigo aqui proposto visa a apresentar a experiência educativa comunitária e intercultural de dois grupos, dois “terreiros” de prática religiosa, completando assim, um ciclo de significações que tenta compreender a problemática do ponto de vista de sua complexidade e da integralidade quando tratamos dos sujeitos destas vivências.

Essa multiplicidade de inter-influências produz um campo eminentemente educativo no qual os desdobramentos não são unívocos, mas múltiplos e complexos; é esta relação que produz o campo intercultural.

Entende-se  Intercultura conforme a define Giacalone (1998): esta colocada a relação intercultural quando as diferentes dimensões entram em relação, “colocam-se em jogo”: “Se a multiculturalidade pode ser a convivência  ...entre grupos distintos, a intercultura é a possibilidade de um projeto, de uma troca, na qual existe a reciprocidade de olhares e de intenções, na qual se dá o confronto entre identidade/diferença”.

Este é um universo de significados de extrema relevância se tomarmos em consideração os fanatismos e extremismos de toda ordem que surgem e ressurgem nesta virada de milênio.

Nas relações endógenas dos grupos religiosos afro-brasileiros, analisaremos especificamente o trabalho de formação e desenvolvimento mediúnico desenvolvido pela Tenda de Umbanda Cabocla Marola do Mar.
Em suas relações exógenas, procuramos desvendar o trabalho educativo intercultural comunitário desenvolvido pela Tenda Espírita Caboclo Cobra Verde.

O trabalho de formação e desenvolvimento mediúnico: o caso da Tenda de Umbanda Cabocla Marola do Mar

Vários centros religiosos desenvolvem, junto a seus médiuns, um trabalho de  formação e desenvolvimento, que caracteriza uma ação intercultural em seu sentido mais amplo. Segundo Fleuri (1999) “na atividade formativa ressaltam-se as formas e conteúdos da cultura interiorizada pelos indivíduos na vida cotidiana, a variedade ...das experiências com que estabelecem contato...” É nesta perspectiva que analisaremos o trabalho desenvolvido pela T.U. Cabocla Marola do Mar pela excelente sistematização do trabalho, confecção de material pedagógico e pelo lugar central que a preocupação educativa ocupa no grupo como um todo.  A atividade de estudo e pesquisa da Tenda atua como um suporte das ações de atendimento e desenvolvimento.

A Associação Beneficente Tenda de Umbanda Cabocla Marola do Mar é uma sociedade civil, pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, de caráter cultural, educacional, social e filantrópico “voltado especialmente para o estudo e difusão da cultura afro-brasileira” 2. A mãe-de-santo (ou chefe-de-terrreiro) responsável é Eldeni Fernandes Camargo.

Entre seus objetivos estão o estudo, prática e divulgação da cultura afro-brasileira, a prática da caridade como dever social e princípio de moral e como exercício pleno de solidariedade e respeito ao ser humano. Além disso,  promove o desenvolvimento de trabalhos educacional, esportivo, social e de defesa e benefício da comunidade na qual a Tenda se insere. Embora a Tenda pratique, de fato, os dois últimos aspectos citados, nos deteremos no primeiro, aquele que diz respeito diretamente à compreensão e prática religiosas, inseridas num contexto macro de cultura afro-brasileira.

A organização institucional segue a configuração tradicional: presidente de honra, presidente e vice-presidente, primeiro e segundo secretários, primeiro e segundo tesoureiros e diretores de departamentos.

A organização religiosa é formada por um conjunto formado pelos guias espirituais 3, médiuns e pela chefe de terreiroMãe Eldeni, filha de Iemanjá e Ogun e entidades, tendo como guia de frente 4 a Cabocla Marola do Mar e Omolocô Caboclo Lírio Branco (coordena todos os trabalhos realizados na tenda, sob orientação da primeira) 5
Eldeni exemplifica como se dá o acolhimento e definição das funções dos médiuns e suas entidades, em um auto-aprendizado coletivo das “linhas” que vão se agregando e num processo de contínua transformação, totalmente aberto à inclusão de novas contribuições espirituais e coerente com a opção democrática preponderante neste centro.

A  Cecília começou como cambona, e depois veio o Omolu. A Milena tem o Povo do Oriente. Ela veio e ensinou a todos como era. Se chegar outras entidades (marinheiro, baiano), a gente vai incluindo”.

O cronograma dos trabalhos inclui o revezamento das sessões destinadas às entidades com os períodos de estudo, atendimento e desenvolvimento, assim descritos pela mãe-de-santo.

“Segunda é atendimento: médiuns e entidades se revezam. Esses que estão começando não dão atendimento, ficam só na corrente 6; na quinta, é desenvolvimento: cada um chama suas entidades para atender os médiuns. Quando o médium começa, perde muito o equilíbrio. No desenvolvimento ele vai se concentrando mais, se firmando... pode se exercitar...então, não é para o público, é só para os médiuns porque eles também querem conversar com os guias que incorporam aqui.”

No binômio “atendimento e desenvolvimento” reside a base teórico-prática do grupo. Ou seja, na concepção de seus médiuns, não é possível  praticar o primeiro junto ao consulentes que procuram o centro, sem uma ação sistemática no sentido de fortalecimento e aprofundamento espiritual, ou seja, o desenvolvimento. Assim, o grupo divide-se entre estes dois diferentes momentos de sua atuação.

O atendimento localiza-se entre os momentos mais importantes e mesmo a razão principal de ser da maioria dos centros, principalmente da Umbanda, que tem como um dos eixos centrais a prática da caridade. Entretanto, não se trata apenas de uma “doação” dos religiosos a seus consulentes, aqueles que procuram seus serviços espirituais. Trata-se de uma troca. As entidades aconselham, orientam e realimentam espiritualmente os médiuns, auxiliando até mesmo em dificuldades concretas da vida cotidiana, tais como problemas de saúde.

“Faço o desenvolvimento dos médiuns e depois eles escolhem qual a entidade que eles querem conversar. E conversam para resolver o problema. Porque a Umbanda basicamente resolve problemas: emocional, com filhos, profissionais, de relacionamentos e de saúde principalmente. Nós temos três entidades aqui que receitam muitos remédios, né? Minha família, se os médicos dependessem de nós morriam de fome [risos] porque raramente vamos ao médico.” (idem)

Estudo, pesquisa, observação e diálogo compõem a educação mediúnica. A preocupação da atividade de estudo e formação busca superar um certo  praticismo espontaneísta identificado em outros grupos, que impede que o médium aprofunde conhecimentos e supere o nível da intuição e mediunidade espontâneas. O objetivo é que sua eficácia espiritual também aumente. Ou seja, há uma clara associação entre saber adquirido e mediunização e esta só pode ser plena e houver preocupação com a aquisição daquele.   

“O que observo nos terreiros é que pegam a pessoa e dizem: ‘Tu bota uma roupa branca, compra uma guia de anjo-de-guarda’ e enfia o médium no terreiro, roda ele como se fosse um pião. O que acontece? O médium vai indo, indo, ouvindo daqui, dali. Ele não tem uma noção do porquê e do prá quê. Então, tem que educar esse médium. Ele tem que estudar, pesquisar, perguntar, muito, muito e sobretudo estar atento porque cada entidade que vem nos mostra tanta coisa, é só observar. Um médium ignorante não pode fazer muita coisa por ele e nem pelas pessoas que vem procurá-lo. Tem um ditado que diz: ‘Se o pote está sujo, a água não vai sair limpa. Ele tem que estudar” (idem)

São diversas as fontes  informativas que podem auxiliar na formação  de um  médium. Elas podem ser orais ou escritas. Uma delas, citada pela mãe-de-santo Eldeni e a mais importante, segundo confirmação de vários entrevistados são as orientações emanadas das próprias entidades ou guias espirituais.  Além da forma oral, através do diálogo com o médium este tipo de  informação pode assumir ainda, como no caso da Tenda analisada, o formato de textos psicografados pela mãe-de-santo. O grupo  possui também apostilas impressas e uma “agenda umbandista” elaboradas por seus participantes, que são utilizadas durante as sessões de estudo com informações sobre entidades do terreiro, horários dos trabalhos, textos de aconselhamento escritos pela mãe-de-santo ou retirados de alguma obra publicada, lembretes sobre deveres do médium, 7 credo e hino da Umbanda, calendário comemorativo dos orixás, prece para abertura dos trabalhos, pedido de proteção, banhos de descarga, etc.

Além disso, existem também as fontes religiosas clássicas, como o Evangelho, os textos empíricos e teóricos escritos por adeptos ou estudiosos das religiões afro-brasileiras e também a Internet. Há, portanto, uma combinação harmônica entre fontes escritas, orais e virtuais, oriundas do plano espiritual e material.

 “O Evangelho é um só, com variações: o Kardecismo usa de um jeito, o catolicismo de outro, o evangélico de outro. Pegamos o Evangelho segundo o espiritismo, estudamos as questões da Umbanda. Os médiuns têm perguntas e durante os trabalhos não dá para responder. Então oriento: escreve pro dia do estudo a gente esclarecer. Utilizamos livros escritos sobre Umbanda. Não como manual prá ver como se faz um trabalho, isso de jeito nenhum! [risos] Que fique claro: ver como se faz oferenda para Ogun, não se consulta em livro! Nessas questões as próprias entidades nos orientam, respondem às questões de remédios, de porque fazer isso, não fazer, né? Usamos também pesquisa pela INTERNET.” (idem)

Dentro do trabalho formativo desenvolvido no grupo é objetivo primordial assimilar a diversidade de conhecimentos. A preocupação é conhecer as variadas linhas de pensamento dentro do grande campo dos autores que escreveram sobre as religiões afro-brasileiras. Entretanto,  há uma  insistência na imprescindibilidade da orientação oriunda do plano espiritual e da maior relevância desta no conjunto da atividade de estudo e pesquisa. Há também uma preocupação com a atualização, adaptação e evolução do conhecimento dos médiuns. Ou seja, não há uma concepção do saber como algo estático, parado no tempo, mas inserido num movimento que transforma continuamente seu conteúdo.

“Estudamos os fundamentos, como outros autores encaram a Umbanda: dependendo da descendência espiritual dele, ele tem uma visão. Tem aqueles que são pesquisadores, observam  e dão o parecer. A gente lê prá ver o que estão dizendo...Porque uma coisa é o que a gente sente e pratica e outra é o que acaba passando para os outros. Tem que aprender, evoluir, se adaptar. Repito: não por exemplo, como se põe um filho na Umbanda, preparações que tem que fazer. Isso não se aprende em livro! Isso é a própria entidade que inicia os trabalhos espirituais dentro do terreiro quem ensina.” (idem)

Acoplada a esta concepção de construção do conhecimento como um processo dinâmico e plural, está a intenção de democratização do saber,  aspecto bastante original da T.U. Cabocla Marola do Mar, exemplar entre o povo-de-santo local. Em grande parte dos terreiros, a mãe ou pai-de-santo abre e conduz as “giras”, as cerimônias rituais. Há alguns raros casos nos quais, sendo a mãe ou pai-de-santo muito idosos, doentes ou estando limitados por razões diversas e possuindo um Pai ou Mãe Pequenos de extrema confiança, estes abrirão e conduzirão os trabalhos. Mas o que chama a atenção no caso aqui estudado é a explícita intenção da mãe-de-santo de romper esta obrigatoriedade e promover em seu terreiro a democratização do saber, através do revezamento de funções rituais que, em geral pertenceriam ao grau hierárquico mais alto no terreiro, mas que neste caso é exercido por outros médiuns, como forma de “práxis” de seu futuro religioso. Não há, de sua parte, qualquer limitação física ou espiritual que impeça a mãe-de-santo Eldeni de abrir e conduzir trabalhos; há apenas a vontade declarada de democratizar alguns papéis consolidados como exclusivos do chefe-de-terreiro, permitindo assim a autonomia do médium. O educador Paulo Freire já  alertou para a importância da práxis no processo educativo, que promove a  reflexão sobre a ação prática do indivíduo como alimentadora do processo de aquisição de saber. Parece ser esta a opção educativa da T.U. Cabocla Marola do Mar.

“Outra coisa que diferencia meu ritual dos outros, é que normalmente o pai-de-santo sempre abre os trabalhos. Eu não abro quase nunca. Os médiuns têm uma escala: quem abre os trabalhos, quem faz a limpeza...Quem abre os trabalhos, segue esse ritual [mostra um livro sobre o altar] que eu deixo. Está prontinho e... abre os trabalhos....Se estou preparando um médium para ser pai-de-santo ele só vai aprender fazendo! Não posso esconder isso, tenho que abrir” (idem)

Coerente com a opção da democracia interna e da divisão de responsabilidades, algumas noções “do santo” adquirem uma significação bastante específica. É o caso do “segredo” religioso e ritual. Para a mãe-de-santo Eldeni, o segredo limita-se aos conhecimentos específicos que resultam da combinação espiritual do médium e de seu lugar na escala hierárquica e que, por esta razão, não são aplicáveis a outro, o que justificaria porque não são coletivizados. Entretanto, acima do conhecimento transmitido pela mãe-de-santo está sempre a vontade do guia espiritual, que deve preponderar sobre qualquer outra determinação, como já vimos anteriormente.

Esses segredos, ou seja, a magia da Umbanda, a gente só transmite para um médium quando ele se recolhe para se tornar pai ou mãe-de-santo. No retiro já se começa a passar os fundamentos secretos, ou melhor, não é secreto, é a essência – Fundamentos Essenciais – sempre obedecendo à descendência dele. Por exemplo: tenho um filho-de-santo que é pai-de-santo e filho de Ogun. Então, tenho que dar para ele os fundamentos de Ogun dizendo: ‘Consulta teu Pai de Cabeça 8 e vê se é isto mesmo o que ele quer.’” (idem)

A democratização do conhecimento não significa, portanto, sua vulgarização ou banalização, mas desdobra-se em duas vertentes: além do mencionado acesso à ação prática ritual como forma de exercício preparatório no processo educativo, significa o fornecimento de ferramentas para aquele que já está preparado para determinado poder religioso a fim de que possa exercê-lo sem depender de outrem. A construção da autonomia significa, portanto, subsidiar o médium de acordo com a escala hierárquica religiosa em que se encontra e que lhe dá direito à obtenção das informações, juntamente com o conseqüente aumento da carga de responsabilidade material e espiritual.

“O básico eu fiz: fui lá e fiz a firmeza 9 do terreiro dele, expliquei como tinha que ser e outras coisas que a gente só diz para um médium quando ele vai ser pai-de-santo, conscientizá-lo da responsabilidade. Isto não se fala para um médium que está iniciando porque ele acaba confundindo e fazendo tudo errado. É como na escola: ao jardim o que é do jardim; ao primeiro grau o que é primeiro grau. Assim é na religião, tem que ser aos poucos, porque chega na metade do caminho muitos desistem e esses conhecimentos não podem ficar com uma pessoa que não adquiriu a noção de responsabilidade e de como fazer uso deles. Senão a gente estaria fazendo um monte de aprendiz de feiticeiro por aí, não é? [risos]” (idem)

Se o segredo tem a medida da dimensão do conhecimento que cabe ao indivíduo conforme seu local na escala religiosa e sua descendência espiritual, não cabe, portanto, manipulação do conceito no sentido de utilizá-lo como subterfúgio ou meio de exercer a mistificação religiosa.

Para mim, não tem esse negócio de segredo. Às vezes é desculpa porque a pessoa não sabe responder o que foi perguntado. O segredo mesmo é quando o médium se deita pro santo e recebe as mensagens do orixá. O chefe de terreiro fica só orientando. Por exemplo, nenhum dos meus médiuns sabe o que está enterrado aqui, mas não interessa, porque quando eles forem ter o terreiro deles, vão ser outras coisas enterradas, porque os santos são outros, as características de cada um varia. No mais, segredo não existe. Os ditos segredos são trabalhos que se faz para os mais variados fins.” (idem)

Pelo exposto, vimos que os terreiros das religiões afro-brasileiras na Grande Florianópolis apresentam um potencial significativo como verdadeiros centros  educacionais de prática intercultural, de aprendizagem social, cultural, religiosa e política.

O trabalho educativo intercultural comunitário comunitário: o caso da Tenda Espírita Caboclo Cobra Verde

Giacalone (1998) aborda a intercultura como um projeto que busca conjugar universalismo e relavitismo, .... “colocar-se na relação, no confronto rela que podemos descobrir semelhanças e diferenças, o eu, o outro experimentando uma nova possibilidade de se tornar nós. É dentro  desta possibilidade de tornar-se “nós”, em uma perspectiva coletivista e comunitária, permeado pelo amálgama cultural da religiosidade, que analisaremos a T.E. Caboclo Cobra Verde. O grupo segue o ritual Almas e Angola e, “vem trabalhando em prol do desenvolvimento prático-mediúnico, colocando à disposição da comunidade um quadro de médiuns aptos a atender mediunicamente todas as pessoas que precisarem de apoio e orientação espiritual” 10. Além disso, oferece aos seus médiuns o atendimento individual, e “este é realizado nas 24 horas que o médium necessitar”.

Além do atendimento espiritual àqueles que a procuram, a Tenda tem como objetivosauxiliar no suprimento, na medida do possível, de “necessidades mais imediatas” tais como: alimentação, roupas, etc. Segundo seus dirigentes, “seus trabalhos filantrópicos vão além dos ideais de solidariedade, buscando também a ação de cidadania e resgate à dignidade humana”. Na TECCV “a caridade é uma meta a ser seguida e para onde se direcionam suas atenções”.

Em sua organização institucional a TECCV conta com uma equipe de 30 pessoas entre médiuns e colaboradores diretos. A presidente é a Yalorixá Maria Tereza Bonete Martins. Além da Tenda, que responsabiliza-se pelo aspecto espiritual, a partir de 1999 foi criada, articulada a esta, a Associação Cobra Verde de Ação Solidária – ASCOVE, destinada exclusivamente à questão filantrópica.

Em caso de camarinha, há uma escala da organização dos médiuns na semana preparatória da “saída” dos que estão “recolhidos”: os trabalhos são realizados de segunda-feira a Domingo. Os turnos são escalonados nos períodos da manhã, tarde e noite, ininterruptamente, havendo a troca apenas de equipes de médiuns de um turno para outro.

O trabalho educativo intercultural comunitário desenvolvido pela TECCV desde sua fundação em 1988 foi assumido, a partir de 1999, pela entidade civil ASCOVE. Alguns integrantes participam de ambas as instâncias: a espiritual, sob responsabilidade da Tenda, e a assistencial, desenvolvida pela Associação. Não há, segundo seus dirigentes, qualquer obrigatoriedade desta dupla ação: há liberdade para optar somente pelo envolvimento espiritual ou somente assistencial. Há independência entre as duas instâncias.

   O trabalho mais sistemático desenvolvido pela Associação atualmente ocorre basicamente junto à Comunidade do  Pedregal, bairro Bela Vista, da qual são cadastradas as famílias mais necessitadas. Este contato ocorreu por iniciativa dos médiuns da Tenda, como um prolongamento do trabalho mediúnico, dentro da concepção de que a caridade não pode restringir-se ao plano espiritual, mas estender-se ao social. Note-se, pela descrição que o babalorixá Geovani faz das motivações iniciais, que não há uma visão unilateral de apenas “auxiliar a comunidade”, mas também a busca de um aprendizado dos próprios religiosos no sentido de realização plena de sua espiritualidade:

“Sentimos necessidade de ter contato mais direto com a comunidade. A gente tinha uma visão muito limitada da situação; procuramos a comunidade até para desenvolver a mediunidade, porque ser  médium é assistir as pessoas de todas as formas. Não só espiritual mas, às vezes, até material, dependendo da situação. O médium é um porta-voz, é um mensageiro espiritual”.

Apesar da independência entre as instâncias mediúnicas e filantrópicas, há entre estas um ponto de intersecção fundamental: a entidade mentora da Tenda, o Caboclo Cobra Verde, que determina os caminhos espirituais e assistenciais. Entre as estratégias orientadas por ele, está a de envolvimento da comunidade de classe social mais abonada que habita em torno da Tenda na arrecadação dos donativos para os mais pobres. Esta mostrou-se eficiente enquanto solucionadora das dificuldades materiais que a proposta de filantropia enfrentou em seu início:

“ A primeira atividade começou em 89: doação de roupas, alimentos e brinquedos. Na primeira campanha começamos atendendo às crianças com brinquedos usados porque o grupo não tinha dinheiro para novos. A própria entidade nos orientou naquele caminho, mobilizar mais pessoas para a caridade. Hoje mobilizamos toda a comunidade para donativos e todos os vizinhos próximos vêm nos procurar para ver como podem colaborar na Campanha”. (Babalorixá Geovani)

O trabalho comunitário educativo  urge como uma estratégia contra o preconceito e pela integração da Tenda com a comunidade circundante e será o principal veículo de rompimento dos estigmas em relação à prática religiosa. O trabalho educativo intercultural, tanto junto à comunidade pobre, quanto junto à mais abonada, circunvizinha à Tenda, representou a ponte concreta de diálogo entre os planos espiritual e material, na medida em que possibilitou a abertura desta vizinhança à aceitação da diversidade religiosa e superação de preconceitos.

“Quando a gente construiu esse espaço, há onze anos, sofríamos preconceito dos vizinhos, eles criticavam. As casas são muito próximas, o barulho atrapalhava e, por não conhecerem, tinham uma visão negativa da Umbanda, imaginam coisas que não é realidade. Com esse trabalho assistencial, conseguimos mobilizar e mostrar para a comunidade que o que a gente faz é positivo, tanto no sentido espiritual quanto no sentido de atendimento às comunidades...Passaram a nos ver com outros olhos. E começaram a se aproximar.” (Babalorixá Geovani)

   Como resultado de dez anos de atuação, o trabalho educativo intercultural comunitário da TECCV possibilitou a saída dos médiuns para além do espaço exclusivo da Tenda e arredores,  além de conseguir outros  apoios, ampliando sua ação e seu leque de influência:

“A gente não está mais fazendo a festa na Tenda, porque se tornou pequeno. Agora a Festa dos Carentes é no Ginásio de Esportes da Bela Vista. O pessoal do ginásio sabe que é do pessoal da Umbanda e apoia, mas porque é o nosso centro e já conhecem nosso trabalho”. (Babalorixá Geovani)

Atualmente, um nova etapa está sendo planejada pelos integrantes da TECCV e ASCOVE: a realização de cursos profissionalizantes junto à comunidade do Morro do Pedregal. O objetivo é um trabalho de formação com vistas à construção da autonomia e rompimento da dependência:

“Não adianta só dar o peixe, tem que ensinar a pescar. Isso foi orientado pelos mentores  do terreiro”. (Babalorixá Geovani)

Pelo exposto, pode-se afirmar que a T.E. Caboclo Cobra Verde está atuando como um verdadeiro centro de formação e educação, com uma concepção que alia espiritualidade e solidariedade na prática. Sua ação transforma não somente o grupo de médiuns, mas irradia-se à toda a comunidade circundante. Em seu trajeto, vai transformando preconceitos em espírito participativo e desejo de colaboração. 
Além deste trabalho mais sistemático desenvolvido pela Tenda, os centros realizam esporadicamente algumas ações comunitárias. Por exemplo, nas ocasiões festivas de homenagens aos orixás, geralmente há um momento de confraternização ao final do ritual, quando alimentos são servidos ou distribuídos a todos que desejem participar, quer sejam freqüentadores do terreiro ou não, uma prática generalizada entre o povo-de-santo.

A Tenda de Umbanda Cabocla Marola do Mar, de Mãe Eldeni está projetando, através da Associação Beneficente e Cultural Marola do Mar, uma sede ampliada na qual instalará um centro assistencial. Neste, além das sessões de Umbanda e estudo do Evangelho, haverá um depósito de donativos angariados para a população carente, sala de aula para reforço pedagógico e alfabetização de adultos e espaço para creche abrigando crianças de 0 a 6 anos em período integral 11.

O trabalho comunitário educativo é encarado como oportunidade de crescimento espiritual para os médiuns e como estratégia contra o preconceito e integração, pela sua ação intercultural e social. As divindades determinam os caminhos religiosos e assistenciais, imbricando-os. A meta é a autonomia da comunidade, com o terreiro atuando como centro de formação e educação comunitária e intercultural, percorrendo, como assinala Fleuri (1999) “os complexos itinerários de formação e produção cultural em contextos já fortemente miscigenados”, como é o caso do Brasil.  A educação intercultural pode, neste sentido, auxiliar na promoção dos sujeitos que muitas vezes estão à margem dos processos de visibilidade social e cidadania. Neste sentido, pode recuperar a  centralidade da contribuição dos grupos citados para a equidade, tolerância e convivência democráticas em nossos país, aliando espiritualidade e solidariedade na prática, cuja ação intercultural transforma o grupo internamente e a sociedade envolvente.

Bibliografia

  • BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. SP: Liv. Pioneira Editora, 1985.
  • CACCIATORE, Olga Gudolle. Dicionário de Cultos afro-brasileiros. RJ: Forense Universitária, 1988.
  • GEERTZ, Clifford. Cap.IV: A Religião como Sistema Cultural. In: GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Pg.101– 142.
  • Fleuri, Reinaldo Matias. Educação Intercultural e complexidade: implicações epistemológicas e perspectivas pedagógicas da educação intercultural no Brasil. Relatório do Projeto. Mover: UFSC, 1999
  • GIACALONE, Fiorella. La festa, il Cibo, L’Incontro. Strumenti di lettura della Festa per un’educazione interculturale.Arnaud: Firenze; CIDIS:Perugia, 1998
  • MORIN, Edgar.Complexidade e ética da solidariedade”. in Ensaios de Complexidade. Porto Alegre: Sulina, 1997.
  • ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro. Petrópolis: Vozes, 1978.
  • SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese da História da Cultura Brasileira. São Paulo: Difel, 1985.
  • TRAMONTE, Cristiana. Com a bandeira de Oxalá! Trajetória, práticas e concepções das religiões afro-brasileiras na Grande Florianópolis. Lunardelli, Editora da UNIVALI, Florianópolis, 2001
  • TRATADO contra o Racismo. In: Tratados das ONGs. Aprovados no Fórum Internacional de Organizações Não-Governamentais e Movimentos Sociais no âmbito do Fórum Global Eco-92. Rio de Janeiro: RJ, Instituto de Ecologia e Desenvolvimento, [s/d}. 264p.

 NOTAS

1 “Força dinâmica das divindades, poder de realização...” CACCIATORE, 1988

2 Estatuto social. Associação Beneficente Tenda de Umbanda Cabocla Marola do Mar. 13 de maio de 1996.

3 Dados retirados sem alterações da Agenda Umbandista. ABTUCMM, 1999. Outras entidades da Tenda -  Linhas* de Povo d’água - Cabocla Marola do Mar; de Caboclos – Caboclo Lírio Branco (Caboclo de Xangô); Cabocla Juremi (Cabocla de Oxoce); de Ogum – Ogum Sete Espadas; de Xangô - Xangô de Alafim; de Oxalá (Almas) -  Preto Velho Pai Tomás; Rita Benedita; de Erê - Mariazinha; do Oriente - Princesa Iara; Ciganos – Carmem; Exús: Pomba Gira Maria Padilha; Exú Sete Capas.

Coordenador dos Trabalhos de Estudo do Evangelho: Irmão Lázaro.

* “Linha = faixa de vibração, dentro da grande corrente vibratória espiritual universal correspondente a um elemento da Natureza, representada e dominada por uma potência espiritual cósmica, um orixá também chamado Protetor e que é chefe dos seres que vibram e atuam nesta faixa afim...É subdividida em Falanges, dirigidas por representantes do orixá...” Cacciatore, 1988

4 “Guia de frente = o mesmo que ‘orixá de frente’. Guia principal da pessoa, seu Protetor, seu anjo-da-guarda. Também ‘guia de cabeça”. Cacciatore, 1988

5 Na parede do centro há um lembrete: “A tenda de Umbanda que freqüentas é coordenada pela entidade Cabocla Marola de Mar: é ela que zela por ti e tuas entidades. Nada é feito sem sua aprovação. O Caboclo Lírio Branco, caboclo de Xangô é a entidade encarregada pela nossa guia espiritual de dirigir todos os trabalhos de desenvolvimento, desobsessão* limpeza magnética** organização das sessões, etc. Devemos a estas entidades nosso respeito, carinho, gratidão, amor, confiança e sobretudo nosso esforço para contribuir com o bom andamento dos trabalhos”.
* Refere-se à ação de desmanchar o ato de “obsedar”. “Obsedar =  perseguir. É o trabalho de correntes atrasadas que leva os perseguidos às mais tremendas situações, inclusive loucura... O obsessor, consciente ou inconsciente estende sua maléfica atuação não somente sobre uma pessoa, mas diversas...Para se livrar, devem os perseguidos procurar um centro kardecista ou de Umbanda, respeitando o que for indicado pelos protetores”. Pinto, s/d.

**“Limpar a casa = praticar atos rituais de purificação para tirar do terreiro influências espirituais negativas” Cacciatore, 1988

6 Corrente de energia espiritual.

7 A título de ilustração: “No dia anterior ao trabalho, o médium não deve ter relações sexuais; ficar o mais calmo possível, mentalizando coisas boas, chamando pelos guias mentalmente; evitar bebidas alcoólicas e fumar; tomar banho de descarga antes da sessão; chegar 10 minutos antes do início, acender sua vela de anjo de guarda e fazer suas orações; procurar decorar os Pontos Cantados na Banda; estar atento aos trabalho e guias para aprender; auxiliar quando necessário; manter sua pasta de médium atualizada; estudar seu conteúdo e perguntar quando tiver dúvidas; providenciar o material necessário para seus guias: cigarros, bebidas, etc.; ser pontual e não faltar, manter a mensalidade em dia; manter bom relacionamento com irmãos de fé; evitar fofocas e conversas improdutivas” Agenda Umbandista, ABTUCMM, 1999

8 “Pai-de-cabeça = orixá masculino protetor principal de uma pessoa (homem). Tem como juntó* outro orixá feminino, a mãe. No caso de uma mulher é geralmente firmada a mãe-de-cabeça”. Cacciatore, 1988
* “Juntó = orixá auxiliar na proteção do orixá dono-da-cabeça sobre o filho. Segundo santo pessoal”. idem

9 “Firmeza = o mesmo que segurança. Conjunto de objetos com força mística (axé) que, enterrados no chão protegem um terreiro e constituem sua base espiritual” . idem

10 TECCV/10 anos – Publicação Especial, 1998.

11 Agenda Umbandista, 1999 - ABTUCMM

 

 

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