Educación y Antropología II
Número Especial de NAyA

 

PRESENTACION
PROPUESTAS PEDAGOGICAS
ANALISIS Y REFLEXIONES
EDUCACION PATRIMONIAL
AUTORES
EQUIPO NAYA
NAYA en INTERNET
NAYA en CDROM

 

 

HOMENS E GESTOS DO PASSADO QUE SE FAZEM PRESENTES

Francisco Reimão Queiroga (1)

Álvaro Campêlo (2)

Summary:

One intends to engage the students in both the research and the research methods of late prehistory and local cultures by using field and laboratory studies in an innovative and pedagogic manner. The scientific areas, which are more relevant to this project, are history, Anthropology, Archeology and Geography. The students will be aware of the ways of life and the environment in the prehistory pas through the studies of palaeoanthropology and palaeoecology. This will embody the handling of prehistoric artefacts, and imitation of ways of life of the communities that inhabited in the area, after the information provided by the archaeological research. Using laboratory techniques will also do the study of the palaeoecological remains from the archaeological contexts.

Resumen:

El trabajo que intentamos presentar por la reflexión está basado en una experiencia en una escuela portuguesa, donde tenemos como objetivo transmitir los conocimientos de antropología y arqueología teniendo como recurso la dimensión experimental y de laboratorio. Nosotros pensamos que es una pedagogía más interesante por los jóvenes, y que con la colaboración de todos los participantes, la comprensión de los contenidos es procesada con más profundidad. Este proceso es también importante por lo reconocimiento del patrimonio de la comunidad y por lo respeto de la identidad cultural y del ambiente.

Resumo:

O contributo que pretendemos dar para a reflexão sobre o tema: "Educação - Antropologia - Arqueologia - Educação Patrimonial", que é proposto pela Equipa Naya, centra-se numa experiência de ensino que presentemente estamos a desenvolver em Portugal, na área da antropologia/arqueologia/património.

A Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica ( ANCCT ), de Portugal, ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, todos os anos apresenta aos investigadores e pedagogos a possibilidade de apresentarem uma candidatura a um concurso denominado "Ciência Viva". O Programa "Ciência Viva" pretende dar apoio à actividade experimental na aprendizagem das ciências. Todos os anos várias Instituições Universitárias e Escolas apresentam projectos a este Concurso, sendo estes posteriormente avaliados por uma Comissão Científica, a qual aceitará ou não o projecto, definindo, em caso positivo, o montante do subsídio a atribuir para financiar as actividades experimentais. No projecto entregue à ANCCT, para além da descrição e justificação científica, deverá constar um orçamento detalhado, correspondente às actividades a desenvolver. Convém ainda salientar que este programa deve ser aplicado numa escola, que tanto poderá ser do Primeiro, como do Segundo e Terceiro Ciclo do Ensino Básico. Tal exigência deve-se ao facto do programa querer incentivar, desde muito cedo, o gosto pela aprendizagem experimental.

Durante os últimos anos, que correspondem ao início do Concurso Ciência Viva, as áreas de onde foram apresentados projectos situavam-se, como se pode verificar pela análise dos projectos anteriormente aprovados (www.cienciaviva.mct.pt), no espaço dos estudos ditos "científicos", ou seja, na área da Física/Química, Matemática, Biologia, Astronomia. Verificou-se, assim, que nunca houvera um projecto na área das ciências sociais! Perante esta situação, julgamos que o alhearmo-nos do programa "Ciência Viva" era prestar um mau serviço à antropologia e à arqueologia, bem como ao entendimento dos seus objectos e métodos de investigação, por parte dos alunos.

Sempre foi nossa convicção, principalmente a partir da própria experiência de ensino de Introdução à Arqueologia e Antropologia Rural (Francisco Reimão Queiroga), e Antropologia Social e Cultural, e Antropologia do Desenvolvimento (Álvaro Campêlo), que a participação dos alunos em trabalhos de campo e em contacto directo com as vivências culturais, não só lhes facilitava a aprendizagem, como os motivava para futuras pesquisas pessoais. Parecia-nos também de alguma forma evidente, que os objectivos do Programa Ciência Viva podiam ser respeitados e potencializados num projecto que reflectisse os conceitos da antropologia/arqueologia (ou paleoantropologia cultural). Um ensino experimental da antropologia em grupos que estão nos anos escolares obrigatórios, não só obrigava a uma reformulação de conceitos e de metodologias de ensino, aproximando-os dos discentes , como demonstrava a valia laboratorial dos conteúdos.

Depois de definir a temática para um projecto desta dimensão, procuramos uma escola onde se pudesse realizá-lo. Foi escolhida a Escola Básica Integrada de Gondifelos, Vila Nova de Famalicão, por razões que se prendem com investigações arqueológicas ali realizadas anteriormente pelo F. R. Queiroga, e pela proximidade intelectual com o Presidente da Comissão Provisória Instaladora, bem como pela própria configuração institucional e organizativa (incluindo a estrutura material)(3). Contactada a direcção da dita escola, constituímos um grupo de trabalho, integrando três docentes da área de História da escola de Gondifelos. O projecto que apresentamos recebeu a adesão imediata deste corpo docente, numa clara expressão de vontade em superar um certo ostracismo a que por vezes são sujeitas as temáticas socio/culturais no discurso científico e nas metodologias laboratoriais. O profundo conhecimento arqueológico da área adjacente à escola, e a necessidade de preservação do sítio arqueológico, e educação da comunidade para um património cultural herdado do passado era um elemento do mais valia que justificava a escolha feita.

Pretende o projecto desenvolver uma nova pedagogia de ensino ao nível das ciências sociais, transportando os alunos para contextos temporais, sociais e culturais diferentes dos que actualmente experimentam. O modo como essa pedagogia é posta em prática passa pela possibilidade de colocar os alunos em contacto directo com uma herança do passado. Desta forma, o projecto utiliza métodos laboratoriais e manipulação de artefactos, para que o ensino experiencial proporcione uma compreensão diferente das comunidades do passado. As áreas científicas mais relevantes para o projecto são a história, a antropologia, a arqueologia e a geografia.

Assumindo como base do projecto a paleo-antropologia e a paleo-ecologia , os alunos são colocados em contacto com estilos de vida do passado pré-histórico, e com o seu meio ambiente. A partir dos dados fornecidos pelo campo arqueológico, e análise laboratorial das espécies vegetais encontradas nas escavações, os alunos são estimulados a recriar os estilos de vida das comunidades humanas que viveram em Gondifelos e arredores, bem como a analisar o impacto que essas vivências foram tendo no meio ambiente do passado. Para atingir este propósito, diversas actividades foram propostas e definidas, gradualmente, como sejam:

- 1 - Estimular os alunos a acompanhar o processo de construção do conhecimento científico sobre as actividades tecnológicas e económicas da comunidade que habitou no Castro de Penices, através do processamento por flutuação, estudo com lupa binocular, e identificação dos vestígios contidos nas amostras de terra;

- 2 - Propor a sua colaboração na elaboração de um modelo informático tridimensional do sítio, e o seu enquadramento geográfico;

- 3 - Incentivar os alunos no conhecimento dos aspectos da arquitectura pré-histórica, assim como dos aspectos funcionais e vivenciais do quotidiano, utilizando a via experimental. Tal desiderato procura correlacionar os dados obtidos pela investigação com os processos da arqueologia experimental;

- 4 - Focalizar a experimentação num dado típico do Castro de Penices, que são as cabanas em madeira. Desta forma, são analisados os dados existentes sobre as mesmas, para se chegar à construção de um exemplar. A construção da cabana será feita utilizando réplicas dos utensílios próprios da época da existência do Castro. Nesta etapa contar-se-á com o apoio de artesãos da zona envolvente, levando os alunos a partilhar com os mesmos os problemas que lhes surjam na execução das tarefas propostas, até à definição final dos artefactos e da própria construção;

- 5 - Construída a cabana, reproduzir-se-á a estrutura funcional interna da mesma, e a relação do espaço habitacional com o ambiente que o circunda, propondo aos alunos uma simulação da vida quotidiana da época, segundo os dados arqueológicos;

- 6 - Informar os alunos sobre o grau de intervenção e de degradação do ambiente pelas comunidades pré-históricas;

- 7- Depois deste percurso experimental, celebrar-se-á um agrupamento dos alunos e de toda a comunidade pedagógica, para se proceder ao incêndio da cabana, registando a sua degradação, como forma de ilustrar o processo de formação do registo arqueológico.

- 8 - As diferentes etapas da experimentação são registadas em vídeo, para que os alunos possam ficar com material para futuras reflexões, e para que o próprio processo de registo, ao focalizar determinados aspectos e rejeitar outros, proporcione à equipa analisar os interesses e o grau de apropriação de conhecimentos dos alunos.

Os objectivos deste projecto, para além de pretenderem demonstrar que existe espaço para iniciativas ligadas às ciências sociais, no âmbito do Programa "Ciência Viva", estão intimamente focalizados numa inovadora transmissão dos conhecimentos arqueológicos e antropológicos, ou seja, pela via experimental. Pretende-se, ao transmitir esses conhecimentos no processo ensino/aprendizagem, torná-los válidos para além do mero significado científico, já de si extremamente importante. Ou seja, assume-se como grande objectivo sensibilizar os alunos para o seu património cultural, pelo conhecimento científico do mesmo e consciência do valor que se lhe deve atribuir, fomentando, desta forma, a defesa do mesmo. O trabalho de campo e os estudos laboratoriais permitirão aos alunos um grau de proximidade e de compreensão desse património, o que lhes permitirá assumir a herança que lhes é transmitida.

Para o bom sucesso do projecto, está previsto o envolvimento de toda a comunidade educativa (professores, alunos, pais, educadores, instituições culturais e autoridades locais). Motivando-a a participar e a colaborar nas diferentes etapas, está-se a sedimentar um espaço mais alargado de reflexão sobre o património, fazendo com que a consciência da herança patrimonial, ao contrário do esquema tradicional (transmissão dos mais velhos para os mais novos), se desenvolva nas gerações mais novas, sendo elas as grandes transmissoras dos dados adquiridos aos grupos mais velhos.

Todo o projecto perderia sentido se ficasse pela última actividade prevista no ciclo experimental. Partilhando os objectivos do Programa "Ciência Viva", o projecto deverá suscitar nos alunos o desenvolvimento de conhecimentos dentro deste campo do saber, a fim de lhes despertar o gosto estrutural pela investigação, de forma a explorar as possibilidades entretanto facilitadas. Assim, todo o processo será conduzido de forma a que a comunidade sinta como necessidade a criação de investigação e de divulgação desta temática dentro da Escola de Gondifelos. O surgimento deste Núcleo de Estudos deve explorar as capacidades pioneiras da escola, ao mesmo tempo que procurar inserir a comunidade servida pela escola na sua planificação.

Tratando-se de um projecto de ensino, que necessita da avaliação do impacto que o mesmo tem a nível de escola, dos alunos, e da própria comunidade, estão previstos diversos instrumentos a serem utilizados para esse fim:

- a) haverá um registo de todos os participantes, o qual será elaborado por cada um dos intervenientes, de modo a registar as suas impressões, comentários e sugestões. Estes dados serão partilhados com os outros intervenientes e com o grupo de orientação, para que surja um ambiente de discussão e análise da evolução do projecto em que todos participem, ao mesmo tempo que fomente uma capacidade de crítica e de respeito pelo trabalho de cada um;

- b) as acções mais relevantes, e que envolvam todo o grupo de trabalho, deverão ser feitas em conjunto, independente do registo individual, principalmente as representações/encenações;

- c) cabe à equipa responsável pelo projecto incentivar a participação dos alunos, devendo para isso ter uma constante avaliação do interesse e empenho dos participantes, como processo de auto-análise;

- d) pontualmente os alunos serão convidados a fazerem e apresentarem pequenos relatórios, principalmente os que digam respeito às experiências laboratoriais;

- e) haverá particular cuidado no acompanhamento e avaliação dos conhecimentos adquiridos nas interpretações artísticas dos artefactos realizados;

- f) por fim proceder-se-á à apresentação e discussão de um Relatório Final.

Como verificamos ao longo da exposição deste projecto para o Programa "Ciência Viva", existe uma possibilidade (para além de outras) de inovar no processo ensino/aprendizagem no campo da antropologia/arqueologia. Os conhecimentos oriundos da arqueologia e da antropologia migraram para outras regiões do saber, ficando alguns dos conceitos operativos, e das conclusões, desligados da fonte de investigação. Esta divagação provocou um alheamento das metodologias próprias a estas ciências, reservando unicamente o espaço universitário e académico para a sua divulgação e discussão. Aproximar os métodos e a construção do saber antropológico das comunidades escolares mais novas, permite que estas tenham acesso aos sentidos e espaços originais dos conteúdos que migraram para outras disciplinas. A noção de que os dados e conteúdos propostos pela antropologia e pela arqueologia não são tão úteis e importantes para a sociedade, como os que as ditas disciplinas "científicas" proporcionam, pode ser ultrapassada com experiências pedagógicas como a que aqui apresentamos.

Esperamos, oportunamente, divulgar os resultados do Programa "Ciência Viva" que estamos a desenvolver na Escola de Gondifelos, para que os mesmos possam ser reflectidos e desenvolvidos, não só no nosso centro de investigação, como por outras equipas que pretendem aplicar as mesmas metodologias no seu espaço de acção.

NOTAS

1 Professor Associado da Universidade Fernando Pessoa, Porto (Portugal). Membro do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada. Doutorado em Arqueologia pela Universidade de Oxford.

2 Professor Auxiliar da Universidade Fernando Pessoa. Director do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada. Doutorado em Antropologia das Religiões pela Sorbonne.

3 A escola de Gondifelos, que desde há alguns anos a esta parte é uma escola piloto na inovação do ensino, está neste momento a finalizar as suas estruturas, que são únicas em Portugal, tanto pela arquitectura como pela organização. Os custos previsto para esta escola estão calculados em cerca de 1 milhão de contos (cerca de 4 milhões de dólares).

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