Perspectivas del Turismo Cultural II
La gestión del turismo y sus problemáticas desde visiones sociales

Roteiros de Turismo e Patrimônio Historico.

E-mail: lbrambatti@terra.com.br

LUIZ ERNESTO BRAMBATTI. Professor da UCS -Doutorando em Sociologia pela UFRGS, Porto Alegre, Brasil.
Autor do livro "Roteiros de Turismo e Patrimônio Histórico", EST edições - Porto Alegre - 2002.

1. INTRODUÇÃO

A modernização das formas econômicas, o acelerado processo de urbanização e as transformações nos processos produtivos, com a incorporação das novas tecnologias, estão modificando os hábitos de lazer das pessoas, que buscam novas alternativas de recreação e entretenimento como forma de satisfazer a necessidade de aliviar o stress gerado pela sociedade industrial moderna. Com esta perspectiva, cresce a demanda por férias e passeios em regiões de forte apelo paisagístico, cultural e histórico. Milhares de pessoas buscam o alívio do stress urbano, a harmonia e equilíbrio interior, na tentativa de encontrar e refazer suas energias vitais, e buscar suas origens mais puras praticando aventura com segurança, contato com a natureza e a redescoberta dos valores antigos, presentes na arquitetura colonial ativa, nos costumes, e na interatividade com comunidades rurais. As atividades no meio rural representam um elemento positivo de revitalização física, mental, espiritual,como também oportunidade de refazer as energias necessárias ao mundo da produção e do mercado

Neste contexto, o espaço rural adquire um valor no mercado do turismo, se associado a uma identidade cultural específica. Tanto o turismo rural é bom para o turista, como de outra forma, o espaço rural tem um desejo muito grande de desenvolvimento econômico, social e humano.Conceitualmente, o turismo rural serve para incorporar e recuperar regiões degradadas, face ao deslocamento campo-cidade,não só no aspecto demográfico, mas pelo desenvolvimento econômico se concentrar no ambiente urbano. O natural abandono do campo pelas políticas públicas de desenvolvimento faz com que estas se tornem espaços de produção primária, fadadas ao abandono e à degradação.

2. O PERTENCIMENTO A UMA CULTURA

No caso dos Roteiros de Turismo Rural, o sentimento de pertença a uma cultura, uma etnia, constitui um "hábitus" estabelecido, recria a tradição em momentos específicos que Castells denomina de identidade de resistência, identidade legitimadora, e identidade de projeto. Ressurge, então no meio rural o conceito de "pertencimento", como elemento de aglutinação e fortalecimento dos vínculos identitários, a partir da integração dos semelhantes.

. Os roteiros de turismo que pertencem à Região da Uva e do Vinho, Caminho das Pedras, o Caminho das Colônias, e a Estrada do Imigrante têm em comum a vontade de resgatar as tradições, a cultura, os hábitos e o patrimônio histórico deixado pelos imigrantes italianos, que por ali chegaram, no final do século passado, motivados pela vontade de "fazer a América", "far la Mérica". Esta vontade comum existente nos municípios, que a princípio apresenta-se como intencionalidade de desenvolvimento econômico, constitui também uma resistência contra uma modernidade globalizada, que coloca acima de tudo, padrões de comportamento unificados, e que ameaça destruir o que ainda permanece como instrumento unificador das identidades regionais : a memória histórica - cultural.

Os roteiros constituem também uma forma de resistência à destruição causada pelo assim dizer tempo, que é a supressão lenta da memória, da cultura,da língua, dos costumes, dos prédios históricos.
Ao mesmo tempo em que se afirmam como instrumentos de resistência a padrões unificadores da globalização, estes roteiros são formas de legitimação de uma cultura e identidade existentes. São portanto a prova histórica, o testemunho vivo de uma identidade que se manifesta no espaço e no território geográfico, legitimando uma identidade regional, étnica, uma verdadeira afirmação de diferenças, de especificidades, de positividades constitutivas não do velho, que serve de referência, mas do novo, produto da criatividade reinventora da tradição, como uma vantagem comparativa e competitiva do mundo moderno.

Os roteiros são também identidades de Projetos. Constituem o eixo e a diretriz de planos estratégicos de desenvolvimento. Orientam investimentos públicos e privados. Re-direcionam as atividades, formam pessoas, estabelecem prioridades e cronogramas.É na formulação da ação de constante construção da identidade que a região busca o elemento unificador das cidades e povoados que constituem os roteiros e formam as regiões, como o produto turístico Região da Uva e do Vinho.

O turismo rural propicia este sentimento de PERTENÇA ao mundo da identidade cultural. Permite a re-aproximação do tempo e do espaço, na medida em que rompe com o cotidiano e insere na dimensão do rural, o tempo e o espaço reais. O virtual não tem lugar no rural. O pão tem gosto de pão, o vinho tem gosto de vinho, a flor tem cheiro de flor, os pássaros realmente voam, as vacas dão leite, e o verde não é uma pintura, mas real, vivo, original. Tudo volta ao seu ciclo natural, onde a vida se origina e se refaz.

A modernidade separou os ritmos de tempo dos ciclos naturais. E este reencontro é vital para o reencontro da própria humanidade. A afirmação da identidade cultural adquire assim uma possibilidade ontológica, que transcende o meramente físico, possibilitando um encontro identitário do ser humano com sua natureza, consigo mesmo.

A preservação do patrimônio histórico em áreas rurais carrega consigo também uma forte conotação social, na medida em que manifesta a dimensão do pertencimento, da construção da identidade coletiva das pessoas, portadoras de tradições genuínas, que formam e conformam este patrimônio, quer seja arquitetônico, cultural, lingüístico ou religioso. Os roteiros, enquanto ações concretas de re-invenção das tradições são o espaço privilegiado para o desenvolvimento de ações comunitárias, de pertencimento, de organização associativa, de atividades criadoras, onde a ação coletiva adquire uma dimensão social que transcende o meramente econômico.

Para a abordagem dos roteiros de turismo existentes na Serra gaúcha, a posição de Grolleau (1994, p.7) parece ser a mais adequada, pois considera o turismo rural um "turismo de encontro, um turismo local, desejado e gerido pelos próprios residentes ; um turismo de partilha... um turismo de gestão local, de impacto local, marcado pelas paisagens locais e valorizador da cultura local."

Os roteiros desenvolvidos na Serra Gaúcha possuem um forte apelo cultural supondo a utilização dos recursos transmitidos pelas gerações passadas e ainda mantidos pelos atuais moradores, quer sejam artísticos, arquitetônicos ou mesmo parte da tradição e folclore conservados e transformados em produtos de oferta turística.

Este modelo de aproveitamento do patrimônio cultural, histórico e arquitetônico de área rural com fins turísticos começou, na região colonial italiana do Rio Grande do Sul, em Bento Gonçalves, com o roteiro Caminho das Pedras,em 1993,num projeto concebido pelo Arquiteto Júlio Posenatto e pelo empresário do setor hoteleiro Tarcísio Michelon.A partir do sucesso da experiência, o modelo se espalhou. Em Caxias, a idéia prosperou a partir de uma parceria entre as Prefeituras de Caxias do Sul e Flores da Cunha, na implantação do roteiro Caminho das Colônias, em 1997,e em julho de 1998, surgiu o Roteiro Turístico Estrada do Imigrante, como uma iniciativa comunitária da Terceira Légua, uma localidade rural de Caxias do Sul.

3. OS ROTEIROS DA IMIGRAÇÃO ITALIANA

Embora o patrimônio histórico existente na região da Serra seja remanescente do processo de colonização italiana ocorrido a partir de 1875, recente,portanto, se comparado aos prédios da colonização açoriana do litoral catarinense, ou mesmo às reduções jesuíticas do século XVII, os vários conjuntos existentes, muitos deles habitados, constituem verdadeiros símbolos da contribuição da etnia européia na formação do estado.

A partir da década de 80,o patrimônio Histórico da Imigração Italiana começa a fazer parte das preocupações de historiadores.Rovílio Costa e Arlindo Batistel,freis capuchinhos fizeram o mais completo trabalho de coleta de dados e fotografias sobre os hábitos dos imigrantes italianos, dando origem a uma coleção de obras sobre o tema imigração. "Assim vivem os italianos", em três volumes, é a principal obra de registro da cultura, dos costumes, da arquitetura colonial italiana, editada pela Editora EST. A obra se converteu num registro importante e completo,servindo de referência para os pesquisadores da cultura italiana no Rio Grande do Sul.

A documentação e tombamento do conjunto de casas históricas de Antônio Prado, constituiu o primeiro referencial na região de conservação, restauração e utilização turística do patrimônio histórico da imigração italiana, considerado no seu conjunto. Outros prédios, como a Casa de Pedra, em Caxias do Sul, já vinha sendo utilizada para fins turísticos desde 1974, quando foi transformada em museu. A Casa de Pedra de Caxias é o prédio histórico mais antigo da imigração e foi um dos primeiros a ser restaurado para ser utilizado como atrativo turístico. Antes disso, os prédios visitados por turistas em Caxias do Sul, eram as cantinas de vinhos (Michielon, Mosele,Antunes, Aliança). Tornavam-se atrativos por oferecerem degustação de vinhos, artesanato, peles,. Outro atrativo turístico da década de 60 bastante visitado, foi o conjunto comercial da Eberle, com a histórica casinha de Abramo Eberle, sobre o edifício, que deu origem ao complexo metalúrgico.

Somente na década de 90, é que o tema do patrimônio da Imigração Italiana volta a ser pensado como atrativo turístico, através do Projeto Caminhos de Pedra, na Colônia São Pedro, em Bento Gonçalves, onde um conjunto arquitetônico de área rural passa a constituir um produto turístico, em base cultural.

Os "roteiros de turismo rural" que se formaram na Serra Gaúcha não são mais que produtos turísticos, considerados como atrações, que no seu conjunto, sugerem uma forma de "espetáculo cultural", associado às belezas naturais, capazes de atrair visitação. São espetáculos ancorados na historicidade, exatamente por oferecerem aos visitantes imagens, impressões, percepções do passado vivido, e que os novos atores, os atuais moradores, conseguem reproduzir com um certo grau de fidelidade, tendo como objetivo agregar valor à renda das suas propriedades, contribuindo de alguma forma com o resgate cultural e com a preservação do patrimônio histórico-cultural local.

LUIZ ERNESTO BRAMBATTI
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